Chamam-na de “Itália autêntica”, de mescla única entre passado e presente, onde o azul profundo do mar Adriático, com seus penhascos impressionantes, se junta a vilarejos brancos enfeitados com os chamados “trulli” (as casas com teto em forma de cone). O fato é que a região italiana da Puglia caiu no gosto do turismo internacional e, é claro, dos amantes do cicloturismo.
Com a curiosidade de ter mais de 60 milhões de oliveiras catalogadas e controladas por satélite, algumas produzindo há dois mil anos, a região da Puglia, no sul da Itália, vem sendo descoberta pelos que querem unir história e gastronomia ao que a Puglia oferece de melhor: suas praias. O bom é que ela pode ser facilmente percorrida de bicicleta.




Nossa viagem em grupo teve início na capital Bari, servida por aeroporto com voos diretos de Roma e outras capitais europeias. Essa é a maneira mais rápida de chegar à Puglia. Embora seja possível cicloviajar por conta própria, com estradas asfaltadas repletas de mirantes e bons locais para as refeições, escolhemos a The Bike Europa para nos apoiar nessa aventura: a empresa providenciou hotéis quatro estrelas, bicicletas (a maioria e-bikes para nosso conforto), carro de apoio com lanches diários, transporte de bagagem e guias pedalando conosco.
O roteiro foi de oito dias, sendo seis pedalando, num total de 280 km. Partimos de Bari rumo a Polignano a Mare, nosso primeiro cartão postal da Puglia. A pequena cidade, situada no calcanhar da Itália, é conhecida pelo imenso penhasco que leva à praia ladeada por uma ponte romana. Não há como não se impressionar com a vista, mesmo em dias nublados, como foram nossos três primeiros nessa cicloviagem, realizada na segunda quinzena de outubro.




Partimos no dia seguinte em direção a Alberobello, patrimônio da Unesco, famosa por ser a cidade dos “trulli”, casas cujos tetos são feitos de pedra e em forma de cone. Elas contam uma história que remonta ao século V, quando os agricultores as construíam dessa forma para facilitar a demolição e evitar o pagamento de impostos pelo Reino de Nápoles, ao qual Alberobello pertencia. Gradualmente, a região passou a ser chamada de civilização da “pietra a secco” (uma pedra colocada sobre a outra sem uso de argamassa).
De Alberobello, que nos deixou apaixonados, seguimos para Ostuni, passando pelas pequenas Locorotondo, Martina Franca e Cisternino. Conhecida como cidade branca, pelas casas pintadas dessa cor, Ostuni fica sobre três colinas, de onde se tem uma belíssima panorâmica do mar Adriático. O centro histórico medieval é um labirinto de ruas estreitas, lojinhas de artesanato e restaurantes típicos. A tinta branca das casas remonta à época em que a cidade fora atingida pela peste. Os habitantes decidiram cobrir as paredes com cal como antisséptico, que acabou virando a marca da cidade.




Ficamos hospedados em um antigo seminário católico, nos arredores da cidade, e tivemos um dia inteiramente livre para explorá-la. Ao final da tarde, embarcamos em ônibus fretado para um transfer à cidade de Santa Maria de Leuca, uma cidade minúscula localizada no extremo do ‘calcanhar da bota’ da Itália, onde pernoitamos. Aos pés de uma belíssima marina e com ares de balneário de veraneio, Leuca nos premiou com paisagens de tirar o fôlego do encontro entre os mares Adriático e Jônico (para muitos, é em Leuca que os dois mares se tocam, todavia, segundo a convenção náutica, é no canal de Otranto, nosso destino seguinte).
Pedalando pela beira-mar, fomos apreciando os penhascos, com paradas para banho, e o azul intenso do mar até Otranto, considerado o ponto mais oriental da Itália e Patrimônio da Unesco pela Paz. Com centro histórico preservado, praia urbana espetacular e passeios de barco a outros pontos deslumbrantes da costa, mereceu mais um dia completo livre, o qual escolhemos passar pedalando por estradas vicinais com inúmeros mirantes em penhascos.




Nosso último dia de pedal foi em direção à Lecce, ponto final da cicloviagem pela Puglia. Considerada a Florença do Sul, Lecce oferece um centro histórico todo construído em pietra leccese, uma rocha calcárea de tom amarelado. Por isso, suas casas e palacetes, com fachadas ricamente esculpidas, com o tempo adquiriram uma linda cor de mel. A grande surpresa do centro histórico é o anfiteatro romano do século II, que pode ser visto por fora e ainda está em fase de escavação. Vale a pena ficar um dia a mais para conhecer essa joia da história e arquitetura romana e barroca, repleta de restaurantes charmosos.
A cicloviagem pela Puglia, independente do roteiro, é perfeita para quem ama belas paisagens, praias de azul intenso, gastronomia e vinhos italianos, aliada a um terreno praticamente todo asfaltado, com algumas inclinações mais acentuadas que podem ser facilmente transpostas com o uso da bicicleta assistida. A região é bastante explorada por cicloviajantes internacionais que, diferentemente dos brasileiros, andam sozinhos ou em dupla, atravessando a região com segurança. Se a Puglia está na moda, e me parece que sim, posso garantir que ela é muito mais bonita se percorrida de bicicleta.








